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BRASILEA Arte (Basilea)
ARTE
«Vida Dura»
— Brasilea —

Heleno Bernardi toca, com suas figuras, em temas que também estão no centro do debate teórico sobre a  fotografia: transitoriedade e morte. Suas esculturas emergem para a câmera: o momento da tomada da foto  libera-as de um processo de mudança progressiva e conserva, com extrema precisão, exatamente aquele  olhar encenado que interessa ao artista. À luz clara, os detalhes podem ser reconhecidos, o estranho não fica  imerso no escuro, predomina a claridade, quase como se a intenção fosse captar evidências com nitidez.

Por causa de sua ligação específica com a verdade, a fotografia parece, tradicionalmente, pré-destinada a  esses temas. A partir da metáfora do “espelho morto”, com a qual, à época do realismo, foi designada a  reprodução fotográfica indiferente, até a caracterização por Susan Sontag de toda fotografia como um tipo de  Memento Mori, porque pode ser lida como um momento que, irrevogavelmente, já passou. O autor clássico de  uma sociologia enfática da fotografia, Roland Barthes, formulou-o da seguinte maneira: “Justamente porque  em cada fotografia, e isso aparentemente está ainda muito preso ao mundo agitado dos vivos, sempre está  contida essa marca irrefutável de minha morte futura, permanece nela um desafio a cada um de nós  individualmente.”

As alusões de Bernardi, no entanto, são muito mais específicas, e estão, de modo especial, comprometidas  com o pensamento Vanitas. A razão para isto não é somente a freqüência temática de caveiras, o motivo  clássico Memento Mori, que, para esse artista, como também todos os objetos concebidos na fotografia, estão  cobertas por tiras de chiclete cor de rosa. A impressão causada por esse invólucro é irritante; no entanto,  dificilmente se consegue reconhecer uma diferença entre a carne crua e a matéria grudenta processada pelo  masseter, ou seja o músculo da mastigação, matéria esta que, como se pode deduzir o tempo todo ao olhar  para as calçadas, tem uma vida extraordinariamente longa.   

Nos repertórios fotográficos de tempos anteriores, surgem repetidamente as alegres caveiras das confeitarias,  que o conhecido fotógrafo britânico Martin Parr fotografou no “Dia dos Mortos” mexicano, testemunhando um  contato com a morte diferente daquele dos europeus, cujos motivos Memento Mori fizeram história. Por sua  vez, o brasileiro Heleno Bernardi não trata de sujeitos encontrados, mas produzidos. Primeiramente surgem as  esculturas, que somente então são transformadas em fotografias. Nelas está entranhado, em contraste com as  figuras de Parr, um colorido desconfortável; as figuras não têm nada de alegres.    Bernardi tampouco busca anestesiar o observador pela beleza, que, reconhecidamente, nada mais é que o  princípio do terrível. O que ele mostra é uma transformação que demonstra respeito aos objetos de uma forma  singular. Ocorre um distanciamento, no entanto eles permanecem reconhecíveis e tornam nítida, de maneira  muito específica, a oposição entre morte e vida. Se, em quadros clássicos de natureza morta, havia com  freqüência a combinação de caveiras com frutas e flores, a escolha de Bernardi recai sobre um estimulante  menos apetitoso, mas da mesma forma onipresente. Destaca-se, paradoxalmente, a vida longa no chão, e, na  perspectiva formal, uma certa fluidez; remete a bolas de chiclete que fizemos quando crianças, que, por sua  vez, recordam-nos o motivo das bolhas de sabão, que, talvez, façam uma alusão à fragilidade da existência  humana, semelhante à fumaça em representações da idade média....

Tradução: Marcelo Neves   




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