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João Bosco (Brasil)
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EXPOSICIONES
Gabrielle Dupont - Redactora

Cubre para PL: Temas Brasileños, Ciencias Sociales, Música y Arte, Universidad de Lausana.

João Bosco el 28 de abril 2009 en Ginebra
Para PL © Gabrielle Dupont, redactora

ENTREVISTAS
Show «Voz e violão» do João Bosco
— Genebra 29 abril 2009 || Gabrielle Dupont © de PuntoLatino

João Bosco está atualmente em turnê pela Europa. Dia 29 de abril ele esteve em Genebra e fez um show maravilhoso. O grande artista conseguiu reunir na sua música varias origens do Brasil: Africana, Portuguesa e Indígena. João Bosco pegou todas as cores do Brasil para criar a sua música. O seu estilo de violão é único e extraordinário. Não é apenas uma música, mas um verdadeiro quadro do Brasil que o compositor pinta para um público que se deixa levar pela melodia, pelos ritmos e pelos sons. Quando ele canta, atravessamos a Amazônia, passamos por uma cidade barroca e saímos numa praia carioca. Ao vivo, impossível resistir ao convite e toda a sala parte para descobrir e redescobrir o Brasil. Depois da última nota, o silêncio é total. Prendemos a respiração para não romper a viagem e não sair do estado de transe no qual embarcamos. João Bosco tocou músicas famosas e inéditas das suas composições e músicas dos maiores compositores do Brasil como Sérgio Mendes, Dorival Caymmi e Antônio Carlos Jobim. No final do show, o artista apenas tocou as primeiras notas e o público já a reconheceu e se pôs a cantar em coro “O Bêbado e o Equilibrista”. Composta por João Bosco e Aldir Blanc durante a ditadura e interpretada pela grande Elis Regina, esta canção se tornou o hino do movimento pela anistia e contra a ditadura. A noite continuou mágica e terminou com um belo jantar. Mais uma vez o artista seduziu com suas histórias e a sala ficou vidrada enquanto contava como havia nascido o samba “Terreiro de Jesus”. O show foi maravilhoso e a noite cheia de encontros ricos e interessantes.

ENTREVISTAS
« ... Voz e violão ... »
— continuação —

— Você poderia me falar da turnê “João Bosco Quintet” que você esta fazendo agora na Europa?

— Nós gravamos um DVD (Obrigado, gente! João Bosco ao vivo) no Brasil há dois anos atrás e agora estamos vindo com o repertório desse DVD aqui pra essa turnê. Então é o que eu gravei com esse quinteto, acrescido no Brasil com um trio de sopros. Mas não trouxemos os sopros, trouxemos apenas a base que é o quinteto. O repertório é o repertório que está neste DVD acrescido de algumas canções que eu gosto de tocar e que não estão no DVD, mas que a gente vai fazendo pela turnê.

— O seu último álbum se chama «Malabaristas do Sinal Vermelho». Para esse CD você trabalhou em colaboração com o letrista Francisco Bosco, seu filho. Como nasceu esse CD e como foi a colaboração?

— O Francisco é um especialista em semiologia, ele é doutor nisso. Ele é um ensaísta e também tem publicado livros sobre filosofia. Nesse momento, ele também faz artigos para dois jornais: em São Paulo “Folha de São Paulo” e “O Globo” no Rio de Janeiro. Ele escreve sobre os livros que são lançados pelos autores que estão publicando no Brasil. Mas ele é uma pessoa grande conhecedora de música popular. Ele gosta muito dela e sempre que ele tem tempo eu peço a ele pra me ajudar, pra colaborar comigo em algumas letras, e ele faz. No caso de “Malabaristas”, foi ele que fez. E agora eu saí do Brasil e deixei um disco pronto gravado com músicas inéditas e nesse disco também tem algumas canções com ele.

— Em uma entrevista, o seu filho disse «escrever é uma forma de manter um pacto com a admiração, isto é, com a erotização do mundo. Escrevo para erotizar o mundo, todo o resto esta subordinado a esse interesse primordial» (Revista E, nº 86, Julho 2004, Ano 10). Em relação ao seu trabalho como compositor você compartilha essa visão?

— Eu sou muito amigo do compositor João Donato no Brasil que é um compositor importantíssimo. Ele é contemporâneo de Antônio Carlos Jobim, aquele também (o Jobim) tinha uma grande admiração pelo Donato. E eu sou parceiro dele, sou amigo dele e, às vezes, nós falamos sobre isso. Nós temos uma maneira muito peculiar e repetitiva de terminar as nossas conversas sobre música. Nós sempre dizemos no final “música é sedução”, acho que é um pouco isso que o Francisco está dizendo. A música tem esse papel de seduzir, de envolver e de trazer a pessoa pra perto da palavra, daquele universo, daquele mundo que está acontecendo. Essa é a função do músico, a função do escritor eu acho.

— E, e não somente trazer as pessoas perto do universo do artista, mas também para o artista mesmo se criar o próprio mundo...

— Exatamente!

— O Brasil é reputado no mundo, em particular, pela sua música que agrada muito, segundo você, qual é a maior riqueza da música brasileira?

— É a mistura, porque o Brasil acabou sendo um país aonde as pessoas foram chegando de outras nações, foram convivendo de uma forma bem interessante e foram compartilhando idéias culturais. O sociólogo Gilberto Freire que escreveu “Casa Grande e Senzala” explica bem o processo da miscigenação brasileira. Darcy Ribeiro, outro sociólogo, esse de Minas Gerais, também falava sobre a riqueza que é a mistura do Brasil. Então, eu acho que nós podemos dizer que a grande pureza da música brasileira está na sua mistura, na sua miscigenação. E nesse estado que ela se encontra realmente verdadeira, identificada, e reconhecível. São vários vetores que estão influenciando: tem a parte africana, ibérica, árabe no nordeste, você tem a maneira do índio de pensar musicalmente, você tem a música européia que foi no Brasil através das cortes, tudo isso foi se exercitando num território muito sem problema, sem nenhum tipo de desconfiança mútua. Então tudo foi se estabelecendo num clima de muita cordialidade. Acaba que no Brasil o povo é cordial e, quando você vive numa nação cordial, as coisas têm mais possibilidade de acontecer.

— Em comparação a certos outros países onde é a música importada que prevalece, os brasileiros são muitos afeiçoados à música popular, tradicional do próprio país, ao samba, ao forró que voltou à moda nesses últimos anos. Como você explica isso? ...


— O Brasil tem uma música popular muita vigorosa, muito forte, então é uma música que tem uma capacidade de resistência. Mas ao mesmo tempo, o Brasil não rejeita as idéias internacionais, pelo contrário: o Brasil gosta muito das coisas que acontecem fora do Brasil, gosta da música americana, gosta da música do Caribe. Mas nós temos, por outro lado, talvez pela herança indígena, uma natural tendência a praticar o canibalismo. Então na verdade existe esse canibalismo cultural, ou seja, as coisas chegam de fora, chegam no Brasil e, de uma certa maneira, são degustadas e são transformadas em outras coisas. Você chega no Brasil e pode encontrar uma cultura hip hop brasileira, você pode encontrar rock’n roll brasileiro, com a poesia brasileira, com o jeito de falar, o jeito de fazer a música mais parecida conosco. Esse é o lado canibal do Brasil, o lado indígena que come a informação de fora, se alimenta daquilo e transforma aquilo numa coisa da aldeia local. Mas o Brasil adora as coisas que vêm de fora; só que ele lida com elas de maneira diferente. Não as aceitam simplesmente como elas são, acha uma maneira de se encontrar ali dentro.

— Qual estilo de música latino americana (fora a brasileira) você gosta e te influencia?

— Eu gosto muito de autores independentemente da nação inteira. Na Argentina, eu tenho uma admiração muito grande pelo trabalho do Astor Piazzolla, que eu tive o prazer de conhecer. Eu acho que foi uma pessoa que conseguiu trazer algo evolutivo dentro daquela música popular Argentina. Ele criou uma situação parecida com o que o Antônio Carlos Jobim tinha feito com a música urbana carioca. Ele deu a ela um certo ar de sofisticação, de inventividade, de profundidade. Deu a ela mais liberdade até porque forneceu a ela elementos novos. O Piazzolla fez isso na Argentina. No Caribe foi uma série de compositores que pegaram toda aquela tradição herdada da música caribenha e de repente conseguiram injetar idéias novas. Fizeram com que essa música crescesse e pudesse navegar para outros lugares e influenciar outras pessoas em outras nações. Eu acho que existe no mundo pessoas que têm uma antena fora do comum, que têm um jeito de captar. Ele pode estar na Finlândia, mas ele de repente consegue ouvir uma coisa de muito longe e, quem sabe, pode fazer uma coisa literalmente nova pra uma música que, às vezes, não é tão rica assim, mas de repente aquela pessoa pode dar um vigor àquilo. Eu acredito muito no artista, sabe? Existe coisa popular, um sentimento coletivo e tudo, mas eu acho que de dentro disso saía uma pessoa que pensa diferente, é que vai dar um sentido novo no coletivo.

— Qual é o seu último «coup de cœur» musical?.

— Tenho momentos assim que eu fico ouvindo certas pessoas e às vezes não existe uma cronologia correta. Alguns anos atrás, eu gostei muito de umas experiências que Philip Glass tinha feito com tipo de música africana, já que ele gosta de trabalhar com idéias minimalistas. E achei aquilo interessante porque ele veio de uma música até um certo ponto, formal, de uma música bastante discursiva e, de repente, ele encontra numa coisa mínima, numa síntese, uma idéia. Achei bonita essa relação dele com a música africana. Mas isso tem muitos anos. Agora eu tenho ouvido algumas experiências do jazz com a música brasileira dos anos 70. Músicos como Wayne Shorter, Harry Harper e o que fizeram com a música brasileira. Notadamente Milton Nascimento com um disco chamado “Native Dancer”, que é um disco que eu tenho pensado nele agora. Eu conhecia o disco na época, mas eu acho que eu não tinha ainda a maturidade suficiente pra perceber coisas nesse disco que eu estou percebendo agora. Mas eu acho que embora haja sempre novidades, a música seja dinâmica e as coisas estão sempre surgindo, muitas vezes alguma coisa fica lá trás, que é rica, é interessante e que é preciso ser pensado nela pra entender o que está acontecendo agora e continuar essa trajetória. Então, eu acho que a cronologia, ela é engraçada, não tem essa importância. Nem sempre a contemporaneidade pode ser algo inventivo, pode ser apenas um momento de transição. Muitas vezes é olhando atrás que vai ser desenvolver algo.

— Com que artista você gostaria trabalhar?

— Eu gostaria de trabalhar com vários artistas. No Brasil, eu gostaria de estar com duas pessoas com quem tenho muita afinidade: um é o Milton Nascimento, que é meu grande amigo. Já falamos sobre a possibilidade de trabalhar juntos. A outra pessoa que eu gosto muito e que também é meu amigo, é o Gilberto Gil. Gostaria muito de compartilhar um trabalho com ele. Fora do Brasil, eu tenho trabalhado com um músico cubano que é maravilhoso, chamado Gonzalo Rubalcaba, um pianista que mora nos Estados Unidos. Talvez seja no jazz uma das grandes novidades: é um sopro novo na música jazzista. Tive a sorte de conhecê-lo em 2001. Temos feito várias turnês juntos, tocamos agora na Espanha. Existem alguns músicos americanos com quem eu gostaria muito de trabalhar. John Mc Laughlin é um guitarrista fantástico. Nos conhecemos, somos amigos. Espero um dia poder fazer alguma coisa com ele. Enfim, quem sabe, reunir essas pessoas todas numa idéia só, desenvolver um trabalho com eles.

— Você já veio tocar na Europa e na Suíça algumas vezes. Você tem um público importante aqui. O que você acha da Suíça e do seu público?

— Eu acho o público, de uma certa maneira, muito parecido. A música é que vai fazer o público. Pode ser aqui, no Japão, na China, em Cabo Verde, pode ser em qualquer lugar, mas eu acho que o artista e a sua música é que têm que se preocupar em que essa música faça com que o público exista de verdade ali naquele espaço, que o público perceba o que está acontecendo musicalmente e que aquele público faça parte daquele momento que você  está vivendo. Ou seja, você na verdade está no exercício do palco que é um exercício de chamamento, de atração. Quando você consegue isso a nacionalidade das pessoas não faz diferença. O que faz diferença é o momento que se vive junto.

— E da Suíça, o que pensa?

— Gosto muito da Suíça, venho muito aqui. Ontem nós tocamos em Zurich. Foi um show maravilhoso, as pessoas estavam muito envolvidas com o trabalho. Na verdade, isso é o papel da música. É uma função de cumplicidade, a pessoa deve se sentir cúmplice daquilo, ela tem que se sentir dentro daquilo. Eu acho que isso é o trabalho da música. Digamos que tanto o público como o artista procurem a mesma coisa, estar junto de alguma maneira, estabelecer uma afinidade imaginaria de uma situação, passar um momento juntos e que esse momento possa vir a ser lembrado futuramente.

— Hoje à noite, durante o show, foi impressionante! Depois da última nota de uma música teve um silencio que durou mais do que o normal...

— Todo mundo em uma espécie de transe não é? E, aliás, eu acredito muito nisso. Nem acontece sempre com a gente. Os dias são diferentes. Temos também as nossas questões pessoais que, muitas vezes, por falta de competência, de exercício, deixamos que isso venha influir naquele momento que não devia. Às vezes acontece, mas não é sempre. Mas gosto de saber que nenhum show é igual ao outro. Eu me sentiria muito monótono e repetitivo se fosse sempre a mesma coisa. E, às vezes, quando o show não vai bem, é interessante também porque faz com que você fique pensando nisso. Hoje não foi bem, então quem sabe amanhã pode vir a ser um grande dia... Acho que um grande dia vem sempre depois de um dia difícil. Os dias difíceis existem, e eles são motivos de inspiração, de reflexão. Eu acho que a vida é algo que você não deve ter preparada. Eu nunca faço roteiro de show, os músicos que tocam comigo ficam muito apreensivos, porque eles não sabem o que eu vou tocar, eu nunca digo, eu digo a eles que vamos tocar o que vai acontecer na hora. Uma música vai convidar a outra, que vai chamar outra numa seqüência em que vamos tocando, vamos deixar acontecer. Eu não consigo fazer roteiro de show, nunca fiz. Sozinho então, eu me sinto maravilhoso, vou pra cá e vou pra lá, e uma coisa chama a outra, isso que é bom no show. Então eu acho que como o roteiro não deve ser pensado com antecedência, o que é bom e o que não é, também não deve ser pensado. Deixa acontecer... Se for bom, ótimo! Se não for, espere e vai ser!

— Eu falei para um amigo meu que é seu grande fã que eu ia entrevistar você. Ele pediu pra eu perguntar uma coisa para você. Ele consegue imaginar exatamente a cena da música “De Frente pro Crime”, gosta muito dela. Mas tem uma frase que ele não entende: “Tá lá o corpo estendido no chão, Em vez de rosto a foto de um gol”. Um gol de futebol ou o carro?

— É um gol de futebol. Sabe por quê? Porque, no Brasil, quando acontece um acidente, uma pessoa que morre por uma bala perdida ou no trânsito, enfim, uma morte que acontece na rua. Então, quando uma pessoa está morta, o Brasil não tem a estrutura da medicina legal daquela pessoa ser socorrida a tempo. A ambulância do Instituto Médico Legal demora a chegar e fica aquele corpo ali no meio da rua. Então algumas pessoas quando vêem aquilo já sabem o que é. Então, pegam os jornais na banca de revista e cobrem o corpo com jornal enquanto a ambulância não vem. E geralmente nos jornais no Brasil, nas primeiras páginas tem sempre foto de futebol. Futebol no Brasil é a paixão nacional. Então às vezes o rosto do morto está coberto por uma folha de jornal só que o jornal estampa uma foto de um gol. Então não é um rosto, mas é um gol. É uma situação de uma dramaticidade intensa, mas que é a pura verdade e as pessoas estão acostumadas com isso. Elas convivem com isso e não estranham mais.

— PL © Gabrielle Dupont
 



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